segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Debates do aparelho psíquico

– Estou pensando em voltar com a minha ex...
– Ficou maluco? Comeu cocô? Injetou iogurte de dromedário? Cheirou micose?
– Ah... Para com isso. Nós tivemos momentos tão maravilhosos...
– É, mas rolaram outros em que parecia que você estava sendo empalado com uma sequoia cheia de cerol.
– Não sei. Neste momento, só consigo me lembrar das coisas boas.
– Que viadagem!
– Os passeios, os programas. Ela era muito foda na cama, mas eu também adorava assistir filmes abraçado com ela. No inverno. Grudadinhos.
– Irc!
– Uma vez, essa foi muito legal, alugamos Moulin Rouge. Eu gosto de pipoca com azeite. Ela, com pimenta. Antes de ver o filme, resolvi dividir o saco de pipocas de microondas com a minha faca serrilhada de cortar pão. Em duas tigelas.
– ...
– O saco estourou e voou pipoca por toda a cozinha. No decote dela, no meu cabelo. Até hoje tem pipoca saindo de buracos no meu corpo que eu nem sabia que existiam. Hahaha!
– Que lindo...
– E as viagens? Ah... As viagens... Queríamos lugares alternativos. Fomos uma vez ao Maranhão para ouvir reggae. Ela fez dreads no cabelo para só depois descobrir que tinha alergia à cera. Ficamos confinados no chalé porque ela não podia tomar sol.
– Nossa!
– Ela ficou tão tristinha. Aí eu fiz uma surpresa: achei um pet shop e comprei um Lulu da Pomerânia. Escondi na camiseta para passar pela recepção e entregar o presente no quarto. Foi tão lindo. Demos a ele o nome de Percival.
– Que coisa...
– Era o nome de um tio dela que era baixinho e ranzinza. Rimos tanto... Que saudade!
– Olha, tudo isso é muito lindo. Mesmo! Mas você não está se esquecendo de uma coisa?
– O que?
– Não deu certo! Vocês terminaram e, que eu me lembre, não foi lá muito amigável. Por que diabos você acha que vai ser tudo fantástico dessa vez?
– Porque vai! É só pesar tudo na balança. As coisas boas e as coisas ruins...
– Você ficou tentando convencê-la, em vão, que a Ana, prima vadia de 2º grau do Carlão, era na verdade um tal de Anacleto. "Anacleto"? Os gregos mais próximos daqui eram personagens da última novela das 8 que abordou esta cultura! Provavelmente lá no Rio de Janeiro!
– Eu não queria que ela ficasse magoada.
– A Ana era bissexual e estava participando da despedida de solteiro do Carlão! Sua ex descobriu tudo porque a Ana atendeu o seu celular bêbada no meio da festa. Falando: “Ana Pompoarismo, boa noite?”
– É... Eu fui burro. Deveria ter desligado o aparelho. Mas eu mudei. Juro.
– Pessoas não mudam. Algumas circunstâncias sim...
– Hein?
– Pensa comigo: de todos os amigos, só o Carlão casou. Temos quantos ainda? Uns seis? Supondo que eles casem e façam despedidas de solteiro. Você tem pelo menos seis chances da Ana atender o seu celular de novo em uma festa dessas. Isso porque eu não estou entrando em detalhes.
– Que detalhes?
– Baladas, strippers depois do futebol, a solubilidade do superego no álcool, as amigas modelos bulímicas da sua irmã...
– Por que você quer estragar a nossa reconciliação?
– Não existe reconciliação. Existe carência e medo da solidão.
– Hein?
– Pensa nesta pergunta: você sente falta dela ou sente falta de alguém?
– ...
– Sentir falta de qualquer alguém não é um bom motivo para procurar uma pessoa.
– Como é? Olha. Não importa. Eu já decidi. Vou ligar agora para ela.
– Beleza. Mas isso é como embrulhar um pão francês molhado com papel alumínio. Vai embolorar, você sabe que aquilo é um monte de fungos. Mas tudo bem, na sua cabeça vai ter a ilusão de que é só uma pasta de gorgonzola. Aí você come e tem a pior diarreia da sua vida.
– Cala a boca!

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ex-cinéfilo

Este assunto estava me perseguindo fazia alguns meses.
De uma maneira não muito clara até que surgiram aqueles famosos fatos ativadores do meu encéfalo.
Esses dias, um grande amigo meu encerrou as atividades de seu blog.
Perguntei “por quê?” e ele me respondeu que “tudo tem que ter um fim um dia”. Fiquei pensando nisso.
A nossa certeza da morte já não é o suficiente? Ela já nos ajuda com o instinto da auto-preservação. Considerando que a morte seja realmente o que conhecemos como fim de tudo.
Curto a frase “que seja infinito enquanto dure”. É como aquela música, meio lado-B, dos Paralamas: “alguma invenção que faça o tempo parar esta tarde”.
Aí que entram os filmes na história. Uma figura fantástica que conheço vive citando Leminski sobre isso. Em resumo, sobre como tudo acaba bem no cinema americano.
Até conhecer alguns publicitários, sempre me considerei um “ex-cinéfilo”. Na época do colégio até meus últimos anos com carteirinha de estudante, ia ao cinema todos os finais de semana. Depois, passava horas na locadora escolhendo alguns VHS e DVDs.
Hoje, não me considero cinéfilo, ou ex-cinéfilo. Mas adoro um filme. Especialmente Hollywood.
Eu gosto de assistir um filme e saber que tudo vai acabar bem. Gosto, inclusive, de assistir filmes que já tinha visto antes. Mesmo com 73 intervalos comerciais na TNT.
É quase como religião: às vezes, a realidade é muito dura e precisamos de um refúgio para recuperar as energias.
Gradativamente, tudo vem se aproximando mais dos detalhes da realidade para nos conquistar melhor: livros, séries, novelas, quadrinhos, publicidade, letras de música e filmes, incluindo Hollywood, na medida do possível, o máximo que eles conseguem.
Esses dias, estava assistindo novamente o “Click” com Adam Sandler. Este filme é um pesadelo hollywoodiano disfarçado de comédia familiar. A personagem de Sandler tenta, o tempo todo, chegar ao “final de seu filme” com o controle remoto. Tenta chegar ao momento em que tudo supostamente fica bem. Tenta chegar ao pote de ouro no fim do arco-íris, mas sempre encontra uma tijela de leite com cereal que, depois de um tempo, perde a integridade molecular.
A solução “cinema americano” é até manjada. Tudo não passou de um sonho e ele ganha uma “segunda chance”.
A pergunta que fica é: quanto tempo depois de ele perceber que tudo aquilo não aconteceu, passando a se dedicar mais à família, comer menos junk food, esquecer as ambições do trabalho, querer fugir de DRs, ele vai voltar aos seus hábitos antigos? Provavelmente em algumas semanas.
O mesmo tempo que o casal vai levar para ter seus problemas de intimidade, ou o Aragorn vai se tornar um rei corrupto na Terra Média.
Ainda bem que o “the end” corta enquanto tudo ainda está bem.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A chave esquizofrênica

Confirmando algumas teorias, o meu peristaltismo mental não tem limites. Aquela história da mente que se expande e nunca mais volta ao seu tamanho original.
A inatividade faz com que qualquer cabeça funcione a mil por minuto. Some um pouco de cafeína e algumas madrugadas assistindo a Pica Pau. Só poderia dar nisso: verborreia e diarreia mental.
Sempre me perguntei quando eu postaria a falta de assunto no BlogOura.
Nos meus cadernos há uma caralhada de textos que eu nunca publicaria aqui. Sobre inúmeros temas diferentes.
Foi aí que me dei conta: tenho uma chave esquizofrênica no cérebro.
A mesma chave que, no meu trabalho, faz com que eu escreva textos para bancos, seguradoras, jornais, temperos, cabeleireiros e etc.
Nestas minhas recentes férias, a chave está sem função, porém ainda ativa.
Na madrugada escrevo poemas de qualquer jeito, viajo em assuntos que não consigo terminar o raciocínio de texto, toco violão, canto, leio algumas páginas de um livro.
Tudo isso no período de uma hora, com a TV ligada no mudo e o aparelho de som tocando Nina Simone ou Tim Maia Racional. Meus vizinhos devem me amar.
Parece que estou em algum livro do Bukowski.
A variedade de coisas úteis para fazer acaba me paralisando na inutilidade.
Bom, faz um tempo que estou planejando colocar a minha série de textos inacabados aqui no BlogOura. Só para mostrar do que estou falando. Vou pensar nisso.
Ah! E torcer para que o final de semana chegue logo. Madrugadas de terça sem a obrigação de acordar cedo são um saco.

Madrugadas de terça são realmente inúteis

Ando pela sala
Preencho meus pulmões
E penso nela
Lembro do inútil
Que não traz lições
E penso nela
Surgem detalhes esquecidos
Alguns arrependimentos
O que tenho que fazer
Ideias ao relento
Minha falta de talento
Insuficiência
Complexo de pato
Falta de disciplina
Superficial de fato
Escrevo, leio
Eu me atrevo, componho
Toco, não me toco
Receio sem foco
Sem jeito
De qualquer jeito
Mal feito
E penso nela
No fim
Só nela: é você, pizza?

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Ciclos

A vida vem em ondas como o mar.
Acho que vem mesmo.
Uma série de fatos gerou o tema deste post.
Cronologicamente, lembrei de uma visita a um laboratório que mostrava em um aquário uma simulação da formação de ondas. Que eu me lembre, elas se formam em ciclos. Supostamente.
Vamos imaginar uma sequência de quatro ondas, em diferentes intensidades. A primeira vem média, a segunda forte, a terceira vem fortíssima, como que no vácuo de areia deixado pela segunda. Depois, vem a quarta onda bem fraquinha.
A quinta onda repetiria o padrão da primeira e o ciclo recomeçaria.
A partir dessas informações, vem à minha cabeça o segundo ponto que passei dias pensando.
Ameacei escrever sobre o assunto nos comentários deste post e, por duas vezes, voltei atrás. Reparem que deletei os dois comentários.
Não estava com a opinião devidamente formada.
O ponto de dúvida é: a quinta tem a mesma intensidade da primeira, mas elas não são a mesma onda. Não mesmo?
O conceito de repetição é complicado.
Duas palmas que bato, por mais que tenha regulado a força para que o som seja idêntico, não torna as duas palmas iguais? Elas são muito parecidas. Até iguais, mas definitivamente não são a mesma palma.
Muito específico? Vamos pensar em outro caso.
Escolhas e decisões.
Sempre tive a premissa de que todas as minhas decisões estão e/ou foram corretas. Elas todas tiveram uma análise de prós e contras, balanças, avaliações e considerações para serem tomadas. É tudo o que temos para fazer uma escolha. Isso faz dela certa. Sempre. Dentro da bagagem cognitiva que temos até o momento. Sempre.
As consequências? Prazerosas ou aversivas. Isso traz o aprendizado. Uma tentativa de encontrar a previsibilidade que facilitaria a nossa vida.
Irreversibilidade? Por enquanto, só para a morte. O ar é tão saboroso para quem passou minutos mergulhando sem tubo de oxigênio. O primeiro gole da cerveja gelada em uma noite quente é tão melhor que todos os outros goles. O fato de eu ter escovado os dentes deixou um copo de suco de laranja amargo. Estragou tudo? Talvez. Mas nada disso impede que eu tome outro suco amanhã com o sabor que eu desejava.
Vou ficar paranoico achando que o um meteoro vai cair na Terra e impedir que eu tome esse suco amanhã? São outras laranjas, são sensibilidades diferentes das papilas gustativas desde a primeira vez que degustei uma laranjada. E daí?
É como a segunda palma e a nossa tentativa de que ela seja como a primeira.
Pode ser que tudo o que nos reste é desejar que tudo na vida seja como o primeiro gole de cerveja. Será o meu brinde nos próximos encontros no boteco.
Nem mesmo as conclusões são definitivas.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Cafona e Brega

Faz umas semanas que estou trabalhando com a minha banda Della Luna e estou adorando compor. É realmente uma fase muito interessante da minha vida musical.
Numa das conversas de bar que tive com meus amigos da banda depois de algum ensaio, começamos a falar sobre as nossas letras. O ponto que gerou toda aquela minha clássica, esquizofrênica e alucinada viagem reflexiva em devaneios febris que geram posts para o BlogOura foi o fato de que eu não gosto das minhas letras de amor. Já até falei sobre isso aqui. A maioria delas vai direto para a lixeira. Eu me sinto muito cafona para falar deste assunto.
Mas estava pensando. Não é uma exclusividade minha ser cafona ao falar de amor. A grande parte da população mundial fica brega. Só queria descobrir porque isso me incomoda tanto.
Apelidos que dariam diabetes adquirida para a Felícia do Tiny Toons, voz mole, muitas vezes fina como a de uma criança. Fonemas? Os “s” viram “sh”, os “z” viram “j”. Algumas vezes, os “d”, “n” ou outras consoantes viram “t”, dependendo do caso, ou do retardamento. Claro, sem esquecer que qualquer palavra no diminutivo fica linda: “minha gordinha”, “meu pudinzinho de pinga”, “minha melequinha”, “ai, meu pedacinho de merda”. Tudo dentro do contexto de cada casal.
Só um interlúdio. Para exemplificar, vamos representar uma frase no português e em “amorês”. Para perceber bem a diferença, leia em voz alta:
“Vamos hoje ao cinema assistir ‘Escrito nas estrelas’?”
Agora em “amorês” ficaria algo parecido com isso:
“Tamosh hote ao shitema ashishtir ‘Equito tash eshtelash’?”
É. Amantes são quase emos.
Mas fazer o que? Charlie Harper disse uma vez: “o amor não é cego. É retardado.”
Os homens têm a desculpa de que pensam com a cabeça fálica, não a encefálica. E as mulheres? Bom, elas também passaram pela fase fálica na infância. Deve ter alguma influência.
Só assim para explicar alguém que compra rosas para amores platônicos de adolescente, escreve poemas ou procura resíduos de perfume na peça de roupa que estava vestindo durante um abraço.
Espero que o ato de me livrar da minha cafonice faça com que eu escreva letras melhores em minhas músicas.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Por uma vida sem encheção de saco II

Mais uma vez volto ao brinde que embalou as minhas noites de boteco por um tempo.
Como estou sem rádio no carro, vários assuntos andam ululando na minha cabeça. Esse chamou minha atenção hoje.
Fazendo uma correlação com a teoria do ser X estar feliz, imagino que uma pessoa que realmente se percebe sem qualquer encheção de saco é um zumbi alienado. Eu realmente não acredito que a ignorância seja uma benção.
A vida só existe em diferentes níveis de encheção de saco. Pensando nisso, elaborei uma escala de incômodos, inspirada na escala de necessidades do Maslow. A escala dos incômodos de Oura tenta demonstrar o nível de desenvolvimento do ser humano em busca do estado utópico da vida isenta de encheção de saco sem alienação, levando em consideração que sempre algo vai nos incomodar, invariavelmente.
A escala de incômodos parte do princípio de que a encheção sempre vai existir, porém, o fator incomodante tem um valor absoluto, baseado no princípio da generalização, para todos aqueles que se encontram fora de um determinado estágio.
Não sei se deu para entender, então vou logo expor os estágios:

Estágio 1 – A Merda: o estágio mais baixo da escala corresponde aos piores fatores incomodantes, como saúde debilitada, falta de recursos ou miséria. Fazendo um paralelo com Maslow, a pessoa na Merda está lutando em busca da satisfação de suas necessidades fisiológicas.

Estágio 2 – A Lama: quando a saúde não é um problema, passamos a reclamar da falta dinheiro. Quando estamos na Lama, falta dinheiro para comprar algo que gostaríamos, ou para terminar de pagar todos os boletos e contas que não param de chegar. Saímos deste estágio ao sentir o alívio de acabar um carnê de prestações, por exemplo.

Estágio 3 – A Foda: há quem diga “se está foda então está bom”. Os que estão neste estágio discordam. Quando dinheiro não é problema, então existem questões existenciais para se resolver. Trabalho, amigos, amor ou família. Muitos que estão neste estágio passam a procurar psicoterapia. Se um dia eu voltar a atender em clínica, tentarei fazer uma pesquisa para mapear as pessoas que estão na fase Foda, sempre potenciais clientes.

Estágio 4 – A Manha: os problemas que todos gostariam de ter. As reclamações são Manhas. “Inferno! Derrubei vinho no banco do meu Porche”, “não aguento mais ir para a Europa. Acho que vou passar o réveillon na lua!”, “Este merlot deveria ter sido servido a uma temperatura entre 14º e 16º, bando de incompetentes!”.

O importante é ressaltar que os incômodos dos estágios superiores são sempre vistos como algo que não se deve reclamar. Os fatores incomodantes dos estágios seguintes geram comentários do tipo: “ai... Se todo problema fosse esse...”. O ponto é: "isso é problema meu, me incomoda e eu vou reclamar!".
Só um adendo: confesso que deveria estar na academia em vez de ficar viajando na Hellmann’s Airlines assim.